Um Caipira em Bariloche

Um Caipira em Bariloche

O segredo de um homem que a crítica nunca elogiou: Mazzaropi

Faz vinte anos que ele é uma presença na vida da cidade, do estado, do país. É um bocado de tempo para o cinema e para o Brasil. O elenco do que nasceu, cresceu, definhou ou morreu durante essas duas décadas seria um nunca-acabar.

Mazzaropi foi o produto Vera Cruz que mais pegou, mas se tivesse dependido da crítica ele teria sido barrado logo que apareceu pedindo licença com os cotovelos na altura dos ombros: Sai da frente.

Acontece que nos tempos e terras da Vera Cruz a crítica favorável foi tradicionalmente fatídica e Mazzaropi teve a sorte de não ser elogiado. Eu próprio não me lembro de tê-lo feito. Mazzaropi me parecia como um dos sinais do clássico provincianismo paulista frente ao Rio.

Enquanto a animação industrial produzia um Zé Trindade — o Genival ou Isidoro que tanto admirei logo que conheci —, São Paulo nos trazia de volta apenas mais um caipira cujo único sinal, retardado, dos novos tempos era o nome italiano.

Segui mal a sua carreira e nunca o encontrei pessoalmente.

Outro dia os deveres universitários me levaram à sala mais popular do largo Paiçandu a fim de ver Um caipira em Bariloche.

A sala estava apinhada e como encarei fita e público como um dado só, minha curiosidade nunca decaiu. O conjunto do espetáculo tinha faces arcaicas e modernas que nunca se confundiam.

Perto de mim havia operários, balconistas e pequenos funcionários cujas conversas ouvi durante o intervalo e, às vezes, no decorrer da projeção. Pelos assuntos, cabelos e saias, todos eram emanações de uma grande cidade moderna, mas nunca se vinculavam com o que poderia ser considerado moderno no filme, isto é, alguns ensaios de ação ou erotismo.

Nesses momentos a atenção se despegava da fita e os espectadores voltavam às conversas iniciadas no intervalo.

O interesse e o silêncio, incessantemente interrompido pelo riso, ficavam reservados para o que havia de mais arcaico: o coronel Polidoro encarnado pelo autor.

Mazzaropi é mais antigo que o palhaço caipira Veneno, que ainda percorre o interior na companhia de Dalila, a última vedete do mambembe. Ele é sociologicamente anterior ao Genésio Arruda dos anos 1930 e mesmo ao Nhô Anastácio de 1908.

Mazzaropi joga com a carta do patético e decorre daí o sentimentalismo que faz parecer moderna a virulência de Anastácio, Genésio ou Veneno.
Na Companhia Veneno e Dalila, emoção e riso são bem compartimentados. As cortinas cômicas são concentradas na primeira parte e a segunda é reservada para “A mulher marcada”. Mazzaropi, como Chaplin, procura fundir as duas expressões. O segredo de sua permanência é a antiguidade. Ele atinge o fundo arcaico da sociedade brasileira e de cada um de nós.

A fim de parecer mais moderno do que Mazzaropi direi que o seu universo é o da redundância. Como só manipula o arquiconhecido, estaria caminhando para a estagnação indiferenciada da entropia.

Acontece que isso não acontece. Mazzaropi é estimulante precisamente quando repete e se repete incansavelmente e sem nos cansar.
Sabemos que o lugar-comum é sempre verdadeiro e um filósofo francês já explicou que o único problema é aprofundá-lo. Mazzaropi não aprofunda propriamente nada, mas os lugares-comuns se acumulam tanto que o terreno acaba cedendo e como as minas descobertas ao acaso de desbarrancamentos, de repente desponta dessas fitas incríveis uma inesperada poesia. Isso em geral sucede quando ele não está fazendo nada de especial, apenas olhando, andando ou pondo fumo no pito. O melhor dos seus filmes é simplesmente ele próprio.

O que perde Mazzaropi são os cineastas. Os melhores, ao que eu saiba, nunca o procuraram e o ator certamente fareja neles os venenos de bilheteria que muitos são.

Alguns profissionais que o cercam são competentes e asseguram uma boa fotografia e um som razoável. Seria bom que ficassem nisso e que de resto se preocupassem apenas em nos fazer ver e ouvir Mazzaropi de maneira metódica, sem pressa, dando tempo para que tudo ficasse bem claro. Que fizessem em suma um cinema bem primitivo que teria de moderno apenas a qualidade da imagem e do som. Penso que isso poderia ser um grande acontecimento artístico. Mas não. Influenciado por seus cineastas, Mazzaropi os deixa fazer o temível cinema e temos o baile de Carnaval ou a luta generalizada de Um caipira em Bariloche: o erotismo e a ação.

São os momentos em que os espectadores acompanhados aproveitam para conversar e os que, como eu, estão sós começam a criticar.

Saí do cinema com vontade de conhecer Mazzaropi. Me disseram que ele tem horror pelos intelectuais, o que, de certa maneira, eu sou. Fico encabulado de procurá-lo, mas acho que um dia irei bater na sua porteira nos arredores de Taubaté.

Como aconteceu tantas vezes na história do cinema acho que Mazzaropi, como Stroheim, se metamorfoseia no personagem que criou. Seu estúdio é uma daquelas fazendas do Vale do Paraíba de onde Monteiro Lobato tirou o modelo de todos os caipiras da ficção.


(Publicado originalmente no Jornal da Tarde, São Paulo, 19 abr. 1973.)