Vozes do Medo

Vozes do Medo

O medo das vozes

O cinema brasileiro dos últimos quinze anos tem dois santos padroeiros: Roberto e Nelson Pereira. O grande momento e Rio, 40 graus são datas cuja importância se aprofunda com o passar do tempo. Os dias longínquos em que essas fitas foram lançadas deviam ser comemorados como o aniversário da redescoberta cinematográfica do Rio e de São Paulo.

O que mais impressiona em Roberto e Nelson Pereira dos Santos é a permanência da juventude dos filmes que fizeram antigamente e a vitalidade dos mais recentes, Como era gostoso o meu francês e Vozes do medo, entre outros.

Qualificar Vozes do medo como uma fita recente e atribuí-la a Roberto Santos são verdades, mas em termos. Na realidade ela está pronta há três anos e foi criação de mais de dez realizadores. Roberto Santos, porém, foi quem mais dirigiu, além de ter sido o responsável pela concepção, acabamento e produção. Vozes do medo vai realçar o curso artístico de cada um que participou da fita, mas é justo que entre como um todo na filmografia de Roberto Santos.

A ideia foi fazer um filme dramático de longa-metragem, com uma estrutura inspirada na composição de um magazine moderno e variado: introdução do editor, reportagens, inquérito, crônicas, contos, ensaios, críticas, histórias em quadrinhos, ilustração abundante, com fotos e desenhos, tudo inserido no jogo gráfico preto-branco-cor. O modelo procurado foi um desses números especiais de revistas em torno de um tema determinado. O do filme seria a juventude paulistana.

Vozes do medo
guardou alguma coisa da concepção original e teria conservado mais não fosse a liberdade total que Roberto Santos concedeu aos diretores convidados: gente de publicidade, da TV e do teatro, estudantes de cinema da USP ao lado de um cineasta consagrado e até um professor de filosofia.

O liberalismo fez mais bem do que mal, pelo menos nessa primeira experiência. Permitiu que uma fórmula se transmudasse em forma nova com possibilidade equivalente de aprofundamento e brilho.

Esse primeiro resultado me impressionou muito. É disparatado e sinfônico, é colado, articulado e fundido. Possui a grandiloquência da ópera e a humildade da crônica, a disciplina da coreografia e o movimento improvisado da existência, o conhecimento e a impressão, a epiderme e o mergulho, a sátira e a poesia. As epígrafes são versos de Carlos Drummond de Andrade, daqueles que assustam um pouco.

Os censores são assustadiços por natureza e por isso tiveram medo. Pareceu-lhes ouvir vozes e não sabendo bem donde vinham e o que diziam resolveram proibir a fita inteira. Passados uns dois anos a censura tornou-se mais atilada, mas permaneceu cismada: liberou a fita menos dois episódios. Aí entrou o INC que passava por uma de suas crises de cegueira: hesitou em dar a Vozes do medo o certificado de boa qualidade. Agora é a vez da surdez e cegueira voluntárias do nosso comércio cinematográfico.

Mas Roberto Santos e Vozes do medo possuem tenacidade e persuasão. A fita chegará ao público e nessa ocasião voltaremos a ela para contemplá-la por dentro.


(Originalmente publicado em Cinema, São Paulo, Cinemateca Brasileira, n. 1, pp. 17-8, set. 1973.)