She Wore a Yellow Ribbon ★★★★★

Serge Daney (em seu antológico texto John Ford For Ever) evidencia a importância dada pelo diretor aos planos gerais em contraponto aos pormenores e close-ups (Daney faz referência à famosa fala de Ford sobre não querer ver os pelos dos narizes dos atores). Os planos gerais estão fazendo o enquadramento da paisagem que rodeia as personagens, como é evidente: seriam planos de contemplação, portanto. Entretanto, segundo Daney, cada plano realizado por John Ford tem somente o tempo de ver tudo o que há para ver, ou seja, é a duração ideal e o movimento ideal: penso na absurda cavalgada do esquadrão pela tempestade de raios — um piscar de olhos e você é totalmente impossibilitado de contemplar aquele fenômeno, tão fugaz.

A fugacidade dos acontecimentos seria, desta maneira, essencial para entender a tal da contemplação fordiana. Sempre uma ação horizontal (geralmente caracterizada pelo cavalgar) colada em uma paisagem (estática). O movimento das cavalgadas corta a estaticidade das paisagens do Monument Valley. O tempo que nós temos para a contemplação é o tempo que a cavalaria tem para atravessar o quadro: é a duração ideal e o movimento ideal de um olho tão disciplinado na arte de olhar quanto um cavaleiro fordiano na de montar a cavalo. E é desta maneira que contemplamos: como se estivéssemos prestes a esquecer essas imagens, esses fenômenos do mundo, essas cavalgadas, esse tal pôr-do-sol laranja berrante (technicolor explosivo). O tempo do olhar, segundo Daney, é o tempo dos cavaleiros. É o tempo do velho cavaleiro Nathan Brittles, em sua elegia, que contempla a paisagem para não esquecer, que olha constantemente as horas (em seu brand new silver watch) para se lembrar que ainda está vivo.

A "contemplação fugaz" dada no plano geral seria, portanto, o próprio movimento do esquecimento destas imagens fulgurosas: a ligeireza dos cavaleiros que cortam o quadro, da esquerda à direita, da direita à esquerda. Ação horizontal colada na imagem. Se a rapidez desta contemplação "horizontal" é o esquecimento, então o que seria a memória? Para Daney, o que surge no meio da imagem, sempre, o fenômeno que brota do coração da imagem: é a cena de Nathan Brittles conversando com sua esposa falecida até se surpreender com a sombra fantasmática que brota no meio da lápide. É aí finalmente que John Ford realiza o seu grande close-up: para mostrar a origem viva deste fantasma, a menina Olivia Dandridge, para mostrar o que resta e sobrevive.

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