• The Boat

    The Boat

    ★★

    Há muitos elementos aqui que são reconhecíveis dentro de certo projeto de cinema de Petrus Cariry: narrativa de tom atmosférico e interiorano, apontando para esse Brasil profundo, dos recônditos onde vive gente humilde, mas repleta de vida, um toque de fabulação ali no meio, o peso do som e da Natureza a cair sobre os homens, os desejos de libertação, tudo muito pertinente e no seu lugar. Mas dessa vez, diferente de filmes como Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós…

  • Dorivando Saravá, o Preto Que Virou Mar

    Dorivando Saravá, o Preto Que Virou Mar

    ★★★½

    Um ebó áudio-visual para Caymmi, um ritual de saudação e agradecimento feito à beira-mar, filme-oferenda. Na esteira das diversas obras sobre o cantor e compositor baiano lançadas nos últimos anos, Dorivando Saravá é um respiro e um mergulho muito mais conceitual dentro de um imaginário tão rico, sem deixar de ser também um documentário de depoimentos expansivos, quando não reveladores, outros já esperados. Virou mar.

  • Napoli, Napoli, Napoli

    Napoli, Napoli, Napoli

    ★★★½

    As dramatizações são desnecessárias, algumas bem problemáticas, mas o olhar de Ferrara para essa Nápoles da ruína e do degredo, suja e violenta, encontra um contraponto muito forte nas conversas com alguns presidiários, homens e mulheres presos em teias de corrupção e más circunstâncias, longe do estereótipo dos grandes mafiosos. Estes, por sua vez, até ganham um tratamento menos estilizados, apesar de ficcionalizados e, por isso, neste filme, acabarem soando mais distantes e frios. O processo de escuta que Ferrara…

  • Aleluia, o Canto Infinito do Tincoã

    Aleluia, o Canto Infinito do Tincoã

    ★★★½

    Para além de observar e extrair riqueza das conversas com essa pessoa abençoada que é seu Mateus Aleluia, há momentos incríveis no uso da imagem de arquivo porque elas realmente dizem tudo sem maiores intervenções – e que bom um filme que nos deixa contemplar as imagens. Existe mesmo um entendimento de que isso que se filma ecoa uma ancestralidade que só o tempo dá conta de contar.

  • Athlete A

    Athlete A

    ★★★½

    Para além de ser um documento contundente de denúncias gravíssimas de abusos contra mulheres, o que já seria oportuno, o filme consegue ir mais fundo ao conseguir dimensionar um ambiente repressor e rígido que possui raízes mais antigas – aquela digressão em torno dos treinadores romenos é fundamental para se entender muita coisa aqui – num passado recente que cristaliza uma faceta cultural do espírito norte-americano: vencer a todo custo. Não estamos falando de vítimas, mas realmente de sobreviventes não só dos abusos, mas da gana pela vitória dessa América carcomida por dentro.

  • She Dies Tomorrow

    She Dies Tomorrow

    ★★

    Há um momento ali na metade do filme em que os personagens incorporam com tanto vigor a percepção dessa enfermidade maldita e fatal, passada de um para o outro, que o filme aponta para uma guinada capaz de alcançar um ápice de loucura e perturbação crescentes que seria animal. Mas me enganei porque depois disso o filme segue destacando apenas a bizarria e contemplando a inércia lamentosa dos personagens. Termina tão despropositado e insosso como começa.

  • Naples in Veils

    Naples in Veils

    ★½

    O velho recurso da personagem fragilizada, aqui em grau elevado, usado para esconder as próprias fraquezas do filme – roteiro esquemático e nada envolvente, além de dependente de uma série de armadilhas nas quais somente alguém muito abalado emocionalmente poderia cair. O filme escorrega na sua própria inoperância dramática porque há pouco esforço para se criar um mínimo de empatia com os dramas ali expressos. Giovanna Mezzogiorno parece que vai desfalecer a qualquer momento, e o filme não se empenha em tornar essa jornada cambaleante em algo realmente nem mesmo crível.

  • The Welles Raft

    The Welles Raft

    ★★½

    Mesmo já tendo sido contada e discutida em outros filmes, a vinda de Orson Welles ao Brasil e seu projeto fracassado de filmar a vida e a festa brasileiras ganha um novo desdobramento, com cores mais locais, digamos, apesar dos atropelos. De modo geral, há duas histórias que se encontram aqui: a dos jangadeiros e pescadores, suas lutas e vivências, e a história de Welles, sua verve e seu gênio, mais um projeto malsucedido nas costas e, dessa vez, desafortunado…

  • Selfie

    Selfie

    ★★½

    Para um filme que concentra e aproxima tantos elementos (o autodomínio da câmera, o retrato da violência, os anseios e vivências de uma juventude nessa vizinhança do tigre e nessa era da autoimagem e, sobretudo, os laços da amizade), Selfie poderia ser mais elaborado como ponto de interconexão, e soa como se o diretor deixasse a cargo do dispositivo e das interações que vão surgindo o enlace dessas questões todas, meio que ao sabor das circunstâncias. Elas estão lá, atravessando…

  • Sertânia

    Sertânia

    ★★★★

    Luminoso (em muitos sentidos) essa releitura que o Geraldo Sarno faz da representação do cangaço no imaginário popular, tensionando de forma direta tradição e modernidade, não apenas na maneira de reproduzir a cultura sertaneja, mas também cinematograficamente falando, sendo aquela luz digital “estourada” o mais representativo desse choque conceitual. Faz isso, inclusive, revisitando e deglutindo sua própria obra, o que é louvável por si só.

  • Mandacaru Vermelho

    Mandacaru Vermelho

    ★★★½

    Uma joia esse filme ser tão bem acabado e resolvido dentro das suas limitações, tendo nascido de um acidente de percurso (as chuvas no sertão baiano e o consequente florescimento da vegetação local, inibindo a ambientação necessária para Vidas Secas, que precisou ser adiado). Na medida mesma em que reforça certas representações básicas de uma mítica sertaneja popular, é capaz também de algumas pulsações interessantes, como o papel da mulher-coronela ou a complexa relação que se dá entre os irmãos. Mas o filme funciona mesmo como reinvenção para o nosso nordestern.

  • 25th Hour

    25th Hour

    ★★★★★

    A Última Noite poderia ser visto como uma exceção na filmografia do Spike Lee, um filme fora da curva por ser centrado em um protagonista branco, ligado a negócios mafiosos, durão, mas nenhum pouco deslumbrado pela vida que leva. A impressão de deslocamento, no entanto, logo se esvai quando nos damos conta de que é justamente um cineasta como Spike Lee – que passou anos refletindo sobre as contradições da América e das disputas raciais e sociais num país gestado…