Once Upon a Time… in Hollywood

Once Upon a Time… in Hollywood ★★★

O projeto de Tarantino é o do cinema como território de desejos profundos que podem ser materializados, reinventados como um capricho narrativo. Um capricho contra o destino, contra a fatalidade das coisas miúdas e do desenvolver de determinados processos históricos. Aqui essas linhas entre experiência coletiva e o simbolismo da ruína, que o cineasta viu em um crime, se encontram. A operação não é simples. Dois novos personagens e os velhos conhecidos vivos e mortos de uma história cruel e gasta pelo universo da notícia.
O Richard Dalton de Leonardo Di Caprio e o psicopata "camarada" Cliff Booth de Brad Pitt são o pretexto de narrativa, tonalizam uma melancolia que se desdobra lindamente nos momentos em que Sharon Tate aprende a amar o cinema, reconhecendo-se na tela e o que dali emana. A consciência do cinema linguagem comentador de si mesmo, dispositivo realizador de desejos, aproxima Tarantino radicalmente de um Godard 60 que ele tanto ama mas também de uma Godard início dos anos 1980, em Salve-se quem puder (a vida): total imagem ou que tem o cinema como tema.
Há ainda algo de desconcertante que reside em uma ambivalência tarantinesca e que assola esse filme. Ele vai de um progressismo da reescritura de uma história ao sabor dos seus profundos desejos (o que causa imensa comoção) até um conservadorismo de uma nostalgia que só cabe a alguns. A nostalgia que só lhe cabe é a do cinema homem, de uma certa masculinidade que para ele era a única possível de conter um avanço tal que resultou na morte de Sharon Tate. A sua tese parece ser a de que só alguém como Cliff Booth no caminho dos assassinos poderia impedir e mudar os rumos daquela história. O desfecho é o sonhado, mas para que isso ocorra que tipo de personagem Tarantino teve que enaltecer? Como nos relacionamos com esse personagem em 2019? Ou como lidamos em 2019 com a sua câmera que teima em fetichizar a personagem que Cliff Booth rejeita por ser menor de idade? O personagem rejeita mas o filme insiste em seduzir através dela. Não é um filme de fácil adesão mesmo com a beleza e emoção de tantas passagens, como a possibilidade bonita final. As durações são esplendorosas, as complexidade humana também mas é cada vez menos tranquilo (ou impossível) o prazer que Tarantino proporciona.

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