Deliverance ★★★★

O primeiro título de Godard para Alphaville foi Tarzan vs. IBM.

Bom título. Como todos do Godard é menos um título do que um programa, e menos um programa do que uma convenção - a convenção exposta, escancarada por um esboço que lhe revela no que tem de mais elementar, mas no presente.

Alguns autores da segunda metade dos anos 1960 (Godard com Alphaville, John Boorman com Point Blank, Kubrick com 2001) espoliaram essa convenção em formas que, de tão distintas, não podiam fazer outra coisa se não conduzir a convenção, em todos os seus meandros, a um nível propriamente reflexivo.

De todo modo, o título imaginado originalmente por Godard serve melhor à proposta de Boorman: em Point Blank o embate era entre um herói primitivo e um sistema que se alastrava a partir do seu espaço mental, de forma que a tentativa de imposição de uma ordem pelas mãos do herói acabava sempre sabotada pelo intervalo de alguma fenda sináptica do seu cérebro. Seguindo esse esquema, Hell in the Pacific seria, como disse um amigo, Tarzan contra Tarzan com a IBM arrebentando com tudo ao final, enquanto Zardoz e The Heretic completam a reflexão inicial de Boorman através de estruturas plásticas e temporais mais insólitas.

Não deixa de ser curioso que o filme que melhor concretiza a aspiração tecnológico-panteísta dessa reflexão é aquele que inverte de vez os seus pressupostos. Um grupo de amigos segue por um rio em duas canoas a remo: Burt Reynolds, o que mais corresponde à figura de Tarzan na ficção do filme (e que fracassa de forma atroz, como Lee Marvin em Point Blank, naquilo que em outras épocas seria o desempenho mítico desse papel), observa que os primeiros exploradores viram aquele território da mesma forma que aquele grupo o vê naquele momento; Ronny Cox diz que consegue imaginar exatamente como os exploradores se sentiam; Ned Beatty diz que eles venceram o rio, e Burt Reynolds retruca, num tom indisputável, que não se vence aquele rio. Nesse tempo todo a câmera acompanha de perto os quatro amigos, registrando o momento em que um encantamento tímido toma o rosto de Jon Voight, o único que não fala nada, o único que parece trazer no seu olhar de curiosidade algo de temerário e cauteloso. Essa natureza a que se referem, e que permanece durante esse diálogo um fundo mais ou menos remoto, mais ou menos indistinto e turvo, surge em toda a sua majestade no último plano - abertíssimo, geral - da cena, no qual vemos muito simplesmente uma canoa se afastando da outra, os homens que víramos a poucos segundos em closes enormes reduzidos a figuras minúsculas numa paisagem imponente. Corte: uma truta, em plano fechado, atravessa o rio contra a correnteza, e em seguida Burt Reynolds, em plano geral, empunha um arco e uma flecha em direção à água.

Nessa rápida passagem Boorman faz algo ainda mais radicalmente disjuntivo e reflexivo que tudo em Point Blank e Zardoz juntos: o peixe é filmado na mesma escala em que os homens foram filmados segundos antes, e agora vemos eles como que tragados por essa natureza inóspita, com a qual parecem intuir que terão que lutar ("Vencemos o rio", "Não se vence esse rio": a truta sobe o rio contra a correnteza, mas segundos depois é atravessada pela flecha de Burt Reynolds). O classicismo meditativo de Deliverance, que fez com que Jacques Lourcelles o comparasse a The Deer Hunter, é um classicismo exterior: se o filme tem essa aparência contemplativa é pela escala em que Boorman trabalha, uma vez que o encadeamento da narrativa é tão dependente da fragmentação e da elipse quanto Point Blank, talvez até mais elíptico pois esse salto em escala necessariamente introduz na composição rítmica do filme uma dilatação da temporalidade intrínseca dos planos, o que permite que mais significados sejam enredados pelo registro icônico da natureza antes de serem articulados e desarticulados pelas estruturas da montagem. É exatamente nesse ponto que se percebe como a inversão de pressupostos permite Boorman atingir o fundo da sua proposta: se restava alguma dimensão icônica na personagem interpretada por Lee Marvin em Point Blank, essa dimensão é totalmente deslocada para a natureza em Deliverance. É ela a IBM do filme, e à imagem dos fragmentos do espaço mental de Lee Marvin em Point Blank ela nada mais faz que impor uma série de ciclos dos quais as personagens não conseguem escapar e que precisarão enfrentar, que os engole a despeito deles penetrarem nela munidos da melhor tecnologia de que nosso mundo tecnológico dispõe (o arco e flecha de última geração de Burt Reynolds).

É interessante notar, em meio a tudo isso, que nem mesmo em Zardoz Boorman dependeu e jogou tanto com a heterogeneidade da forma como em Deliverance: se por um lado ele pensa e organiza estruturas rítmicas como um modernista, se por um lado seus filmes são construídos como sistemas, por outro o que predomina é uma visão bucólica e panteísta da natureza, totalmente vinculada às convenções do filme de aventura e dependente na sua representação da parte de invenção e imaginação que cabe aos atores. Alain Resnais e Burt Reynolds, Hal 9000 em forma de natureza faustosa e indiferente: nem se trata mais de dialética, é mais questão de bom gosto e sofisticação mesmo.