Elle

Elle ★★½

Um amigo disse certa vez que o Saïd Ben Saïd é o airbnb do cinema autoral contemporâneo: chama o De Palma para fazer um filme depalmiano, o Cronenberg para fazer um filme cronenberguiano, o Polanski para fazer um filme polanskiano, o Garrel para fazer filmes garrelianos (não que os filmes do Garrel para o Ben Saïd não sejam bons, mas não há neles aquilo que há de melhor no cinema do Garrel: a exploração de territórios antes pouco explorados seja pelo cinema no geral, seja por ele na sua obra), o Verhoeven para fazer um filme "polêmico", "chocante" (para dondocas de festivais).

É a pura verdade. O que Ben Saïd faz é basicamente dar dinheiro em troca de "filmes autorais", ou seja, produtos de marca (exceção: Paul Sanchez est revenu !, pois a Mazuy não tem uma "marca"), e é essa, hoje, a triste descendência do "autorismo": o produtor (acompanhado pelo curador, o crítico e o cinéfilo) que transforma o cinema em marca.

É no Ben Saïd e nos filmes que produziu, sub-produtos dos seus autores (a exceção, como eu disse, é Paul Sanchez est revenu !), que se condensam os problemas e os vícios do autorismo, como disse um outro amigo. Que esses remendos da política dos autores versão 2.0 tenham sido recebidos a cada nova ocasião com um misto de impavidez e delícia pelos críticos e cinéfilos só mostra a verdadeira catástrofe que foram suas atuações em relação ao cinema desta década.

Dito isso, expectativas altas para Benedetta e principalmente Call Girl. Que venham mais exceções ao que até aqui foi a regra.

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