Amadeus ★★★★½

Antonio Salieri (F. Murray Abraham) se recorda de sua juventude, de como batalhou para aprender música e chegar a uma posição de destaque como compositor da corte em Viena. Salieri então conhece Amadeus Mozart (Tom Hulce), um homem libertino e irresponsável, mas com um talento inexplicável para a música. Salieri reconhece e admira o dom de Mozart, indo a todas as suas óperas e sendo realmente um fã do compositor, mas também o inveja, por ter tudo tão fácil e por ser mais competente que a si mesmo, que tanto batalha para isso.

Com roteiro de Peter Shaffer a partir de sua própria peça, Amadeus explora a relação entre Mozart e Salieri, que realmente foram compositores contemporâneos, embora a rivalidade explorada na película seja questionável historicamente. O longa é brilhante ao jamais demonizar um ou outro personagem. Se a princípio Amadeus é o herói e Antonio o vilão, logo percebemos que ambos têm qualidades e defeitos, de maneira que os dois personagens são figuras complexas e o espectador pode optar torcer por um, por outro, ou simplesmente apreciar a narrativa e aguardar pelo desenrolar dos eventos.

Grande parte do mérito pela qualidade de Amadeus é do diretor Milos Forman, que conduz o filme com firmeza e rege o tom da obra, passeando com sabedoria pelos anos de convivência entre os compositores. Vale ressaltar a coragem de Forman ao não exagerar o foco em um dos maiores músicos da história, dando espaço suficiente para Salieri. Todo o trabalho técnico, da direção de arte aos figurinos, merece aplausos pela reconstrução da corte vienense da época, com destaque para as variadas perucas usadas por Hulce em cena.

Mas como falar de Amadeus sem mencionar os trabalhos espetaculares de Tom Hulce e, principalmente, de F. Murray Abraham. Hulce cria um personagem com tendência ao caricato, mas de alguma forma realista, explorando a constante batalha interna de Mozart entre seus desejos libertinos e sua esposa, entre sua apreciação pela música e a necessidade de pagar as contas, entre a importância de agradar quem lhe paga e o gosto pela bebida. Já Abraham tem a tarefa mais difícil da projeção: criar um antagonista para um personagem tão querido e ainda assim desenvolver uma relação de empatia com os espectadores. Salieri é invejoso e deseja prejudicar Mozart, é verdade, mas ao mesmo tempo ele admira a obra de seu adversário como ninguém, enxerga neste um gênio e também trava uma batalha entre seu orgulho ferido e a admiração. E apesar de toda a complexidade do personagem, Abraham jamais deixa a peteca cair, provando-se digno da empreitada.

Amadeus é um retrato da cena musical austríaca do final do Século XVIII, em que um talento extraordinário surgiu, narrado do ponto de vista de seu maior fã e maior inimigo. Se o longa não faz jus ao que realmente aconteceu, tem ainda assim o mérito de fazer com que o público mais amplo conheça a figura histórica Antonio Salieri.

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