Aquarius ★★★★½

Clara (Sonia Braga) mora sozinha no apartamento herdado da Tia Lucia (Thaia Perez), no Edifício Aquarius, um prédio dos anos 50 na badalada Avenida Boa Viagem, orla de Recife. Todos os vizinhos venderam seus apartamentos para a Construtora Bonfim, representada pelo inescrupuloso Diego (Humberto Carrão), mas Clara não tem interesse em deixar de viver no lugar onde construiu tantas memórias e precisa lidar com a pressão da construtora.

O cineasta Kleber Mendonça Filho chega ao seu segundo longa-metragem de ficção com uma proposta um pouco menos desafiadora que em O Som ao Redor, mas nem por isso menos bem executada e, aliás, apesar de gostar muito de ambos, chego a preferir este último, talvez graças ao foco em uma personagem tão fascinante.

Mesmo sem ter assistido a uma boa parte dos filmes da Sonia Braga, arrisco-me a sugerir que este seja seu auge. Em O Som ao Redor, Mendonça mostrou ser um ótimo narrador e dominar a arte de estar atrás da câmera. Em Aquarius, descobrimos que ele é também um grande diretor de atores. Maeve Jinkings, Irandhir Santos, Zoraide Coleto e Carrão compõem todos personagens complexos, com uma narrativa por trás de seus olhares e atitudes. Mas é mesmo Braga que brilha.

Clara é uma pessoa de forte sensibilidade, algo percebido já em sua primeira cena, em 1980, quando é interpretada por Bárbara Colen, e assim prossegue durante toda a projeção. Amante das artes, especialmente da música, Clara vive através de seus sentidos: do sol e do mar na praia; do sabor do vinho; da dança; da música; das memórias de sua vida.

Braga se entrega completamente ao papel, oscilando o tom de voz conforme sua irritação, oferecendo com o olhar muito mais do que com os diálogos. Torço para que o filme seja bem-sucedido nos principais festivais pré-Oscar (está passando essa semana no TIFF, de Toronto), porque a atriz merecia até mesmo ser indicada em categoria de atuação.

Outro grande trunfo de Aquarius é a maneira como o longa envolve o espectador. Senti medo por Clara, torci por ela, desejei a preservação do edifício e até senti uma vontade de passar uns dias naquele apartamento. Curiosamente, me hospedei uns anos atrás a uma quadra de distância do Oceania, prédio usado nas filmagens e que enfrenta problemas similares, mas confesso não ter percebido a construção. Já agora eu gostaria de ir lá e admirá-lo como ele merece. Não que a obra seja um marco arquitetônico, mas o longa de Kleber Mendonça me fez adorá-la ainda assim.

Ah, e Fora Temer!

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