Boyhood ★★★★½

Boyhood acompanha o jovem Mason Jr. (Ellar Coltrane) dos 6 aos 18 anos, e suas relações com a irmã Samantha (Lorelai Linklater, filha do diretor), a mãe Liv (Patricia Arquette) e o pai Mason (Ethan Hawke), destacando neste período de 12 anos alguns dos acontecimentos de maior destaque na formação da personalidade do rapaz.

Não é a primeira vez que um diretor filma o mesmo elenco por um período longo de anos, mas o fato de não ser uma ideia sua não tira de forma alguma o mérito de Richard Linklater na realização desta empreitada complexa e difícil. Mesmo sem considerar todos os aspectos envolvidos, já deve ser doloroso trabalhar por tantos anos em um projeto sem vê-lo pronto, sem poder lançá-lo. Mas extrair de filmagens provavelmente muito pouco coesas um roteiro lógico... é inacreditável.

A montagem de Sandra Adair também merece todas as honras. Provavelmente ela recebeu muitas e muitas horas de filmagens, e junto com Linklater montou a história na sala de edição. A seleção das cenas foi tão minuciosa que não percebi nada em excesso, nenhuma interação entre os personagens que poderia ter sido retirada.

Mas o maior trunfo de Boyhood reside em sua bem-sucedida proposta: abordar fatos cotidianos de uma família comum, excertos do dia-a-dia daqueles personagens, focando no crescimento e amadurecimento de Mason Jr., mas sem deixar de abordar sua irmã e, com um pouco mais de destaque, as vidas de Liv e Mason Sr. Não há no roteiro grandes reviravoltas, não há sequer pontos climáticos de maior destaque. É basicamente uma colagem de momentos da vida de Mason, e o que são nossas vidas senão uma seleção de momentos especiais acrescida de uma rotina? Também é interessante notar como nem todos os momentos-chave são exibidos, apenas intuídos das cenas não-filmadas, como o primeiro beijo, a primeira relação sexual, o baile de formatura, etc.

Mesmo não sendo pai nem me identificando com aspectos específicos da vida do protagonista, a trama do longa me tocou em vários momentos, dos quais destacarei um especial: quando Mason, o pai, canta para os filhos uma música profundamente pessoal, chamada Split the Difference, que fala sobre como é ser um pai ausente e divorciado, e de como ele gostaria de ter sido mais presente. A música, aliás, foi composta pelo próprio Hawke para seus filhos, sendo ele também um pai divorciado.

Falando de Hawke, o ator faz um ótimo trabalho na composição do sensível Mason Sr., e o amadurecimento do personagem pode ser visto nas próprias rugas surgidas no rosto do ator ao longo dos 12 anos de filmagem. Arquette também está ótima como a mãe que toma péssimas decisões em sua vida pessoal, mas batalha para dar conforto aos filhos. Ainda assim, eu sinto um pouco de exagero na praticamente certeza de sua vitória no Oscar, ela está bem, mas nada de excepcional.

Quem realmente merecia ter sido lembrado é o jovem Ellar Coltrane, cujo talento vai crescendo junto com seu corpo. Mas desde sua tenra infância, é possível perceber que ele é capaz de compor um garotinho sensível e curioso. E a sensibilidade de Mason só cresce ao longo da projeção, muito bem representada por Coltrane. Pequenos detalhes, como sua voz baixa e meio murmurada, e seu olhar distante de sonhador, tornam até difícil separar ator de personagem.

E talvez esta seja uma dádiva de Boyhood: as situações vivenciadas na película são muito pessoais para os quatro principais atores do elenco. É um trabalho de ficção, mas que diz muito sobre as vidas deles. E certamente estes quatro terão no filme de Linklater um de seus principais trabalhos na vida. Que este diretor sensível e talentoso continue nos surpreendendo.

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