The Conversation ★★★★★

Harry Caul (Gene Hackman) é um especialista em gravações de áudio não-autorizadas, utilização de escutas e equipamentos por ele desenvolvidos para captar conversas alheias. Ao realizar um trabalho contratado pelo misterioso Diretor (interpretado por um ator famoso não-creditado, então manterei aqui o mistério), Harry desconfia que os envolvidos na conversa captada podem correr risco de vida, e não sabe como lidar com essa possibilidade.

É impressionante constatar que o Coppola filmou A Conversação entre os dois primeiros O Poderoso Chefão. Em pouco mais de dois anos, os três longas saíram nos cinemas, naquela que talvez seja uma das mais brilhantes sequências de produções de um mesmo diretor. Diferentemente dos longas sobre os Corleone, este estrelado por Gene Hackman é intimista, custou pouco e não tem grandes pretensões, mas o resultado não fica atrás.

Combinando de forma magistral os diferentes aspectos da produção, a direção de Coppola está realmente no ápice. A trilha sonora de seu então cunhado, David Shire, é perturbadora, fazendo uso de um piano para evocar efeitos sonoros de gravações e contribuindo sensivelmente para o clima inquietante da projeção. Aliás, todo o trabalho sonoro do longa merece destaque. A gravação do casal, em três fitas com sonoridades distintas, a mistura de sons da praça em horário de almoço, o trabalho de limpeza de ruídos feito por Harry... tudo magistralmente executado pela edição e mixagem sonora, que merecia ser mais lembrada pela crítica.

O diretor de fotografia Bill Butler auxilia Coppola a compor verdadeiras pinturas em cena. Não pela plasticidade. Não é uma fotografia de cores vivas. Mas pela significância e complexidade. A cena inicial, com a câmera enfocando toda a praça, depois aproximando e circulando, é uma maravilha. A obsessão por manter a câmera fixa enquanto algumas ações se desenrolam também tem mérito, bem como o excesso de closes no rosto de Harry.

Não posso esquecer de mencionar a montagem. Além de construir o clima da projeção com um segundo ato mais calmo, e, ao lado do roteiro, aprimorar o personagem antes da trama, o trabalho de edição é particularmente bem-sucedido na conversa fatídica do início do longa. Não só na primeira vez que a presenciamos, mas em todas as sessões ouvindo as gravações, nas quais o filme alterna entre Harry no presente com as imagens originais da conversa, e a cada ouvida, diferentes ângulos de câmera são explorados, revelando novas nuances. Este é um filme para ser visto várias vezes, e novos detalhes irão surgindo a cada experiência.

Por último, e talvez mais importante: a atuação de Hackman. Compondo um personagem paranóico, um homem solitário e amargurado, isolado pela natureza de sua profissão, um homem que se culpa pelo que suas atitudes podem causar de mal; o ator carrega a maior parte da película nas costas. Com a câmera afundada em seu rosto tal qual Bergman com Liv Ullmann, Hackman exibe em sua expressão todas as nuances do personagem. O roteiro não precisa nos dizer muito, pois quando a pálpebra do personagem treme, quando sua sobrancelha arqueia, sabemos o que ele está sentindo. Uma performance realmente memorável.

Saí da sessão ontem decidido a dar 4 estrelas para A Conversação. Comecei a escrever hoje com 4,5 em mente. E terminei dando 5. Quanto mais reflito sobre esta obra prima, mais gosto dela. Já quero rever.

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