The Tale of the Princess Kaguya ★★★★

O cortador de bambu Sanuki no Miyatsuko (voz de Takeo Chii) descobre uma garota em miniatura dentro de um broto de bambu. Ao levá-la para casa, sua esposa Ona (Nobuko Miyamoto) a pega nos braços e esta se transforma em um bebê, que é então criada pelos dois. A garota (Aki Asakura) cresce sobrenaturalmente rápido e quando o cortador de bambu encontra ouro e tecidos finos na floresta, entende que deve levá-la para viver na capital e ser uma princesa. Em sua infância, a princesa faz amizade com as crianças próximas da propriedade do cortador de bambu, entre elas Sutemaru (Kengo Kora). Quando vai para a capital, se sente sozinha e eventualmente recebe o nome de Kaguya e é preparada para desposar algum nobre.

Partindo de um dos mais tradicionais contos japoneses, o diretor Isao Takahata conta uma história doce e folclórica, sobre uma garota que não consegue ser feliz, apesar dos esforços de seus pais. O roteiro é hábil ao retratar a passagem do tempo, e comparar a infância na zona rural com a juventude urbana de Kaguya. As motivações de Miyatsuko jamais são vilanizadas, e percebemos que suas intenções são boas. Ona também é uma personagem bem desenvolvida, e que atende aos desejos do marido, mas tem seus modos de não se render completamente à vida urbana. Por sua vez, a princesa é a mais complexa dos personagens, mantendo uma aura de mistério e agindo com habilidade para recusar seus pretendentes. Porém, Sutemaru poderia ser mais bem abordado, e o interesse de Kaguya por ele merecia uma cena extra para desenvolvimento.

Companheiro de Hayao Miyazaki desde a fundação do Ghibli e até mesmo antes disso, Isao Takahata sempre ousou um pouco mais que o amigo na condução de seus filmes, buscando temas menos ocidentais, explorando temáticas mais pesadas (como no clássico Túmulo dos Vagalumes) e ancoradas na realidade (como no também excelente Only Yesterday). Miyazaki afirma ter ganhado sua consciência ambiental através do amigo, e que sem ele seria apenas um adaptador de mangás. Visualmente, Takahata também explora visuais diferentes, como em Meus Vizinhos, os Yamadas, e agora em Kaguya.

Já que entrei no assunto, o visual de Princesa Kaguya é deslumbrante. Com um traço leve e sutil, focado na expressividade dos olhares, Takahata faz uso de uma coloração pastel e borrada, praticamente conferindo um efeito lápis-de-cor ou giz-de-cera, o que ajuda a evocar o tom folclórico e tradicional da narrativa. Pensar que o Ghibli ainda faz a maior parte da animação à mão me deixa prematuramente saudoso do estúdio em vias de aposentadoria. Sinto muita falta da animação tradicional em meio a este mundo de filmes em computação gráfica.

Me impressiona muito a indicação do longa para o Oscar e outras premiações hollywoodianas, uma vez que a história é por demasiado japonesa, e a compreensão completa só vem a partir de um conhecimento prévio mínimo dos costumes e da cultura nipônica. Diferente do parceiro Miyazaki, Takahata não faz trabalhos no estilo Disney e que ganham reconhecimento no ocidente e no oriente. Mas não que isso não signifique que O Conto da Princesa Kaguya não mereça as honrarias, pois é uma linda animação japonesa, e um encerramento digno de uma carreira honrada.

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