Split

Não é difícil entender porque Fragmentado está sendo chamado por muitos de "o retorno de M. Night Shyamalan", o que discordo, pois para se ter um retorno a boa forma é necessário que se tenha estado mal a princípio, mas não deixa de ser compreensível quando se olha para um público cada vez mais acomodado em um cinema padrão, sem personalidade. Shyamalan entrega aqui um de seus filmes mais acessíveis, no sentido de poder ser assistido apenas como um bom suspense com alguns toques pessoais do diretor. Mas claro, o filme é mais do que isso. Se muita gente o está chamando de seu retorno, dizendo que dessa vez ele acertou, isso só mostra como o diretor sabe muito bem como chegar até o grande público e, se não o faz, é por uma razão.

Fragmentado é o filme mais autoanalítico da própria obra do diretor -ora, seu final grita isso-, e a superação de traumas pessoais através do fantástico aparece mais uma vez como sua marca, mas dessa vez tem algo diferente aí. Se em A Visita, o confronto final tinha um efeito restaurador e catártico, aqui a sensação que fica é de desolação. Ao não mostrar o desfecho da personagem de Casey -mesmo que deixando implícito no olhar- o filme não exibe a libertação final, como nos outros, e isso, em um universo como o de Shyamalan, onde é preciso ver para crer, dá um efeito de incerteza inquietante. A presença de um "vilão" além de tudo introduz uma nova dinâmica a essa premissa, quase como uma negativa dela mesma.

É fascinante como o filme flui e alterna seu ritmo com facilidade, muito por conta do excelente trabalho de câmera, e como McAvoy se diverte no papel e entrega uma de suas melhores performances. É possivelmente o filme mais escrachado do Shyamalan e no fim, junto com toda essa auto-reflexão do diretor fica um gancho sensacional que me deixa muito na expectativa para o seu próximo trabalho. E digam o que quiserem dele, ta aí um diretor que ama e, acima de tudo, acredita no que faz e o faz com paixão.